quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um Copo de Cólera - Raduan Nassar

(...) mas não se preocupe, pilantra, você chega lá... montadinha, é claro, numa revolta usurpada, montadinha numa revolta de segunda mão; quanto a este tresmadalho, ou delinqüente, te digo somente que ninguém dirige aquele que Deus extravia! não aceito pois nem a pocilga que está aí, nem outra 'ordem' que se instale, olhe bem aqui..." eu disse chegando ao pico da liturgia, e foi pensando na suposta subida do meu verbo que eu, pra compensar, abaixei sacanamente o gesto "tenho colhão, sua pilantra, não reconheço poder algum!" "hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil, rebento do anarquismo!... há-há-há... dogmátoco, caricato e debochado... há-há-há..." "entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia" "entenda, seu delinquente, que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta" "força bruta sem rodeios, sem lei que legitime" "estou falando da lei da selva" "mas que não finge a pudicídia, não deixa lugar pro farisaísmo, e nem arrola indevidamente uma razão asséptica, como suporte" "pois vista uma tanga, ou prescinda mesmo dela, seu gorila" "dispenso a exortação, fique aí, no seu círculo da tua luz, e me deixe aqui, na minha intensa escuridão, não é de hoje que chafurdo nas trevas: não cultivo a palidez seráfica, não construo com os olhos um olhar pio, não meto nunca a cara na mascara da santidade, nem alimento a expectativa de ver a minha imagem entronada num altar; ao contrário dos bons samaritanos, nao amo o próximo, não sei o que é isso, nao gosto de gente, para abreviar minhas preferencias; afinal, alguém precisa, pilantra - e uso aqui sua palavrinha mágica - 'assumir' o vilão tenebroso da história, alguém precisa assumí-lo pelo menos para manter a aura lúcida, levitada sobre tua nuca; assumo pois o mal inteiro, já que há tanto de divino na maldade, quanto de divino na santidade; e depois, pilantra, se nao posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado" "sem acesso à razão, ele agora se ressucita ridicularmente como Lúcifer... há-há-há... som e fúria... há-há-há você não passar, isto sim, é de um subproduto de paixões obscuras, e toda essa algaravia, obsessivamente desfiada, só serve por sinal para confirmar velhas suspeitas... aqui com meus botões, aberração moral é sempre cria de aberrações incofessáveis, só pode estar aí a explicação dos teus 'caprichos'... além, claro, do susto que te provoco como mulher que atua... e quanto a esse teu arrogante 'axílio' contemplativo, a coisa agora fica clara: enxotado pela consciencia coletiva, que jamais tolera o fraco, você só tinha de morar no mato; em favor do nosso ecologista, será contudo levado em conta o fato de não ter arrolado a poluição como justificativa, imitando assim os mestre-trapaceiros que - pra esconder melhor os motivos verdadeiros - deixam que os tolos cheguem por si mesmos às despresíveis conclusões sugeridas pelo óbvio, um jogo aliás perfeito e que satisfaz a todos: enquanto os primeiros, lúdicos, fruem em silencio a trapaça, os segundos, barulhentos, se regozijam com a própria perspicácia; mas não é este o teu caso: trapaceiro sem ser mestre, o que devia ser escondido acabou também ficando óbvio, e o tiro então saiu pela culatra, pois só podia mesmo ser este o teu 'destino': viver num esconderijo com alguém da tua espécie - Lúcifer e seu cão hidrofóbo... que pode até dar fita de cinema... há-há-há... um fechando os buraquinhos da cerca, o outro montando guarda até que chegue a noite, os dois zelando por uma confinadíssima privacidade, pra depois, na surdina... muito recíprocos... entre arranhões e lambidinhas... urdir com os fucinhos suas orgias clandestinas... há-há-há... há-há-há... há-há-há... me dá nojo!" e foi de embolada que ela desfechou a saraivada, levando firme a mão lá na pedreira, me atirando de novo a razão na cara, (...) "... eu, o quisto, a chaga, o cancro, a úlcera, o tumor, a ferida, o cancer do corpo, eu, tudo isso sem ironia e muito mais, mas que não faz da fome do povo o disfarce do próprio apetite; saiba ainda que faço um monte pr'esse teu papo, e que é só por um princípio de higiene que não limpo a bunda no teu humanismo; já disse que tenho outra vida e outro peso, sua nanica, e isso definitivamente não dá pauta pra tua cabecinha" eu disse vertendo minha bílis do sangue das palavras, sentindo que lhe abalara um par de ossos (...) a nanica, mesmo irritada, se agarrou às pressas no rabo do meu foguete, passando ao mesmo tempo - c'um eloqüente jogo das cadeiras - a me incitar pro prega "o mocinho é grandioso em tudo... fascistão!" e ela desatou sua sentença em dois tons, claramente distintos, e o que tinha no primeiro de forçada zombaria, aí enroscada numa ferina ponta de malícia, tinha de conclusiva seriedade no segundo, (...)
Paginas 58 à 63 - Editora Brasiliense, 4º edição.


Um comentário:

Pequenas Epifanias disse...

psiu...

linda.


essa mocinha com os braços abertos parece tu=]